Por que a venda de bebidas alcoólicas é proibida para menores de 18 anos?

Uma substância psicoativa…

O etanol, álcool etílico ou simplesmente álcool é uma substância considerada psicoativa (ver Substâncias Psicoativas), ou seja, que produz alterações nas funções cerebrais. Pertence à classe das drogas depressoras do sistema nervoso, isto é, substâncias que “lentificam” e reduzem a atividade cerebral. Apesar de lícito, causa prejuízos significativos tanto para pessoas dependentes (chamados de etilistas, alcoolistas ou alcoólatras) quanto para não dependentes que ingiram grandes quantidades.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo abusivo de bebidas alcoólicas gera 1,8 milhão de mortes anualmente. O álcool está envolvido em mais de 60 causas de morte! São alguns exemplos: câncer (vários tipos), cirrose hepática, pancreatite, pressão alta, acidentes, homicídios, suicídios.  [Veja mais em: Já ouviu falar em cirrose hepática?Pancreatite Aguda e Pancreatite Crônica]

Esse texto dedica-se a falar da dependência alcoólica. Para saber sobre os efeitos agudos da ingestão do álcool, veja: Álcool, um vilão lícito.

 

O que é dependência?

O indivíduo dependente de álcool (ou outras substâncias psicoativas) apresenta desejo compulsivo pelo consumo da substância, tolerância aos seus efeitos e síndrome de abstinência ao reduzir ou cessar o uso da mesma.

Tolerância nada mais é do que a necessidade de doses cada vez maiores para a obtenção do efeito almejado. Por exemplo: uma lata de cerveja bastava para o indivíduo se sentir relaxado, mas, com o passar do tempo, ele precisará de 3, 5, 20 latas para obter a mesma sensação de relaxamento.

Abstinência é um conjunto de sintomas que surgem no indivíduo que reduz ou cessa o uso da substância da qual ele é dependente. É facilmente verificável no indivíduo alcoólatra que dorme se sentindo bem e acorda suando, com tremores nas mãos, “batedeira” no peito e mal estar geral. Durante o sono, o indivíduo, obviamente, não ingeriu álcool, ou seja, ficou muitas horas sem a substância, o que o faz acordar com abstinência. É por esse motivo que muitos etilistas ingerem álcool logo ao amanhecer, para cessar ou evitar que apareçam os sintomas desagradáveis da abstinência.

Além disso, é extremamente comum na vida da pessoa dependente de álcool situações como: conflitos familiares, divórcios, atrasos ou faltas ao trabalho, demissões, acidentes, violência. Mesmo atividades que antes o indivíduo considerava prazerosas, como as de lazer, acabam sendo negligenciadas e esquecidas. A vida do etilista passa a “girar em torno” da bebida…. e nada mais.

 

Quem são os indivíduos com maior chance para desenvolver dependência alcoólica?

Alguns fatores “facilitam” o desenvolvimento da dependência:

Gênero: homens sofrem mais com alcoolismo do que mulheres.

Genética: filhos de pais alcoólatras têm mais chance de se tornarem alcoólatras quando adultos.

Doenças psiquiátricas: indivíduos com depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia têm mais chance de se tornarem alcoólatras do que a população geral.

Traços de personalidade: pessoas muito tímidas podem voltar-se ao álcool na tentativa de “melhorar” suas habilidades sociais. Além dessas, pessoas que gostam de ser “o centro das atenções” também tendem a beber mais.

Influências familiares: indivíduos pertencentes a famílias em que o consumo alcoólico é frequente e é encorajado, tornam-se alcoólatras mais facilmente.

Religião: pessoas criadas em tradições religiosas que desencorajam o consumo alcoólico têm menos chance de tornarem-se alcoólatras.

 

“Fulano bebia e morreu de cirrose”

Já ouviu essa frase antes? Por que, afinal de contas, o fígado “sofre” tanto com o consumo excessivo de álcool? Simples: porque é o fígado que metaboliza o álcool!

Quando você ingere uma bebida alcoólica, ela passa pela boca, esôfago, estômago e chega ao intestino, onde será absorvida para a corrente sanguínea. O sangue cheio de etanol alcança, então, o fígado, que é o órgão responsável por metabolizar esse álcool, ou seja, transformá-lo em outras substâncias para que possa ser eliminado do corpo.

Isso significa que o fígado fica em contato constante e direto com o álcool. Com o passar de anos de consumo alcoólico excessivo, esse órgão pode ser destruído (cirrose) e todas as suas funções prejudicadas. A cirrose não tem cura, a única solução é o transplante hepático.

 fígado normal                                                                      fígado com cirrose

                   

Quais as consequências do consumo crônico excessivo de álcool no organismo?

Apesar de o dano mais famoso do álcool ser a cirrose hepática, o fígado não é o único órgão do corpo que sofre com o alcoolismo. Aqui seguem algumas consequências do álcool no organismo:

• Trato gastrointestinal: gastrite, úlcera, aumento da gordura no fígado, hepatite, cirrose.

 Sistema cardiovascular: pressão alta, aumento do colesterol, miocardiopatia (doença nos músculos cardíacos), arritmias.

 Nervos periféricos: dormência, formigamento e fraqueza em braços e pernas.

 Sistema musculoesquelético: fraqueza muscular, ossos fragilizados e maior risco de fraturas.

 Sistema nervoso: atrofia do cerebelo, atrofia do cérebro, perda de memória, encefalopatia, demência.

 Sistema imune: maiores riscos de infecção, como pneumonia e tuberculose.

• Alterações psiquiátricas: depressão, ansiedade, transtorno do pânico, bipolaridade, alucinações e delírios.

 Desordens da função sexual: em qualquer idade, mesmo doses baixas de etanol podem causar disfunção erétil nos homens. As mulheres podem ter irregularidades menstruais (ou mesmo deixar de menstruar), redução no tamanho dos ovários e infertilidade.

 Gravidez: aborto, parto prematuro e alterações fetais (no bebê) irreversíveis. O álcool ingerido pela gestante atravessa facilmente a placenta e chega ao feto. Mães alcoólatras podem gerar bebês com malformações no rosto, defeitos no coração, microcefalia, retardo mental, alterações nas articulações.

 Câncer: o álcool aumenta o risco de desenvolvimento de vários tipos de câncer, como boca, faringe, laringe, esôfago, mama, estômago, intestino, fígado e ovário.

Cabe ressaltar que o risco de desenvolver câncer é diretamente proporcional à quantidade de álcool ingerida e que a associação do hábito de fumar também aumenta as chances de desenvolvimento de neoplasias.

 O indivíduo alcoolizado se coloca mais em situações de risco, o que pode causar: afogamentos, homicídios, suicídios, violência sexual, agressão física, acidentes de trânsito, acidentes com maquinário pesado, quedas, comportamento sexual de risco e uso de drogas ilícitas.

 

Qual o custo do alcoolismo?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil perdeu 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2014 em decorrência de problemas relacionados ao álcool, o que equivaleu, à época, a R$ 372 bilhões.

O alcoólatra sofre com inúmeras questões de saúde, bem mais do que uma pessoa comum. São alguns exemplos: pancreatite, cirrose hepática, câncer, hemorragias no sistema digestivo, pressão alta, problemas psiquiátricos, problemas neurológicos. Além desses, os acidentes de trânsito, quedas, violência em geral também são mais comuns quando o álcool está presente. Para tratar de tudo isso, o Sistema Único de Saúde (SUS) despende enorme quantidade de recursos. Há custos para internar, fazer exames, realizar cirurgias, utilizar medicamentos, realizar tratamento de reabilitação (fisioterapia, por exemplo).

Para lidar com os crimes de homicídio, suicídio, violência sexual, violência doméstica – todos mais comuns quando há pessoa(s) alcoolizada(s) envolvidas –, há custos com polícia, sistema judiciário, sistema carcerário.

Os etilistas costumam ser pessoas em idade produtiva, o que significa que também há custos maiores ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), já que o alcoolismo é a principal causa de afastamento do trabalho por uso de drogas.

Ainda que o alcoolista não apresente nenhum problema sério de saúde ou não se envolva em nenhum tipo de acidente ou violência, existe o custo para o tratamento do alcoolismo em si (para o indivíduo deixar de ser um dependente). É um tratamento que exige profissionais das várias áreas da saúde, que envolve familiares e amigos, que exige terapias individuais e em grupo, que necessita de medicamentos e acompanhamento a longo prazo.

 

Por que a venda de bebidas alcoólicas é proibida para menores de 18 anos?

Bom, vistas todas as consequências negativas da ingestão alcoólica, seja na intoxicação aguda (Álcool, um vilão lícito), seja na dependência, não é difícil perceber que, apesar de lícito, o álcool não é uma substância inócua.

Quanto mais jovem a pessoa é ao entrar em contato com o álcool, maior a chance de ela se tornar dependente e, entrando em contato com o álcool, maiores as chances de contato com tabaco, maconha e cocaína também. Proibir crianças e adolescentes de consumir bebidas alcoólicas é uma tentativa de protegê-los de inúmeros problemas relacionados ao álcool e também às drogas ilícitas.

Autoria: Tayná

Fontes:

National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA – https://www.niaaa.nih.gov)

Addiction Center (https://www.addictioncenter.com)

Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA – https://cisa.org.br)

Livro Medicina Interna de Harrison

Livro Clínica Médica da Universidade de São Paulo

Livro Álcool e suas consequências: uma abordagem multiconceitual

Artigo da Universidade Federal de São Paulo, disponível em: https://www.unifesp.br/reitoria/dci/publicacoes/entreteses/item/2196-problemas-causados-pelo-consumo-custam-7-3-do-pib

Notícia do Portal Agência Brasil, disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-02/alcoolismo-e-o-principal-motivo-de-pedidos-de-auxilio-doenca-por-uso-de-drogas

Imagens: Internet

Junho/2020